Compulsão alimentar: quando a relação com a comida é uma prisão

O Transtorno de Compulsão Alimentar Periódica (TCAP) é definido pelo DSM-IV (Claudino e Borges, 2002) por episódios recorrentes de compulsão alimentar periódica (que é o excesso da ingesta de alimentos com a sensação de perda de controle sobre a comida).

É interessante perceber que esse transtorno não está associado diretamente à obesidade, ou seja, pessoas magras ou com apenas sobrepeso também podem apresentá-lo.

Claudino e Borges (2002) ressaltam que o diagnóstico do TCAP é feito quando pelo menos três dos seguintes comportamentos estão presentes:
• Quando se come muito rapidamente;
• Quando se come até sentir-se cheio;
• Quando se come uma grande quantidade de comida mesmo quando não se está com fome;
• Quando se come sozinho por vergonha pelo quanto se ingeriu;
• Quando após esses episódios compulsivos, sente-se repulsa, culpa ou depressão.

Conclui-se assim que para quem sofre com esse transtorno, a relação com a comida é de extrema angústia e prazer ao mesmo tempo.

Na compulsão alimentar, a relação com a comida ocorre como uma adicção (um vício) que gera muito prazer quando está sendo realizado, mas depois acarreta enorme culpa, sentimento de fracasso e impotência por parte do sujeito.

Ela traz um sentimento de “clandestinidade” para quem sofre com ela, já que os episódios muitas vezes acontecem escondidos sem que familiares e amigos se deem conta de sua ocorrência.

Após o fim dos episódios, a autoestima é derrubada de forma brutal trazendo um enorme sentimento de vergonha e sensação de fraqueza para o sujeito por não ter conseguido “controlar” sua relação com a alimentação.

É preciso ressaltar, todavia, que o próprio diagnóstico da compulsão alimentar inclui essa perda de controle para ser realizado. Ou seja, por mais que se saiba que os episódios de compulsão trarão muito sofrimento emocional a longo prazo, o sujeito se sente aprisionado nessa relação com a comida e sente muita dificuldade em parar sozinho com tais eventos.

Quero, assim, desconstruir de uma vez por todas, a máxima que “foco, força e fé”, como tanto propagam os posts do Instagram, são suficientes para dar conta dos episódios compulsivos e, de uma forma geral, das relações de sofrimento com o corpo.

Como se bastasse “força de vontade” apenas para acabar com esses episódios, o que explica assim esse sentimento de embaraço e culpa em quem sofre com essa patologia.

Aliás, é interessante perceber que a mesma sociedade que coloca o indivíduo compulsivo como culpado, transformando-o no bode expiatório e depósito de toda a agressividade social, também alimenta sua compulsão por meio da publicidade extensa, alta oferta de alimentos ultraprocessados e da busca do prazer imediato.

Vivemos em uma sociedade que defende que o prazer deve ser imperativo e buscado de todas as formas (seguindo a lógica narcisista) e o que importa é a imagem que você sustenta perante as pessoas a sua volta (o que explica o grande fenômeno das redes sociais).

Por esse motivo que tanto quem sofre com uma compulsão quanto quem carrega um excesso de peso sofre com tanto mal-estar e se sente tão desajustado em seu ambiente.

É uma sociedade que engorda e que demanda o corpo perfeito do sujeito AO MESMO TEMPO.

A meu ver, tanto a compulsão alimentar quanto a obesidade denunciam os dissabores da nossa sociedade contemporânea e o quanto ela pune o sujeito e reprime um sintoma que ela mesma alimenta.

No âmbito individual, o que percebo muitas vezes no consultório é que a compulsão alimentar é porta-voz de uma dor e de um mal-estar. Tem um mal-estar social, como já falamos, dessas ambiguidades da própria sociedade, mas ela também denuncia uma dor psíquica e um vazio enorme na relação do sujeito com ele mesmo.

Os episódios de compulsão, assim, buscam preencher um buraco (ou uma série deles como podemos supor): o buraco da mãe que ia acolher a criança, entretanto só a repreendeu; o buraco do marido que deveria tratar com ternura, mas só emitiu irritação e desprezo; o buraco da irmã mais velha que ia brincar junto, mas humilhou perante os amigos.

Quais as dores psíquicas que foram engolidas e acabaram transformadas num excesso na alimentação? Quais vazios você carrega que não puderam ser olhados e cuidados e acabam depositados nessa voracidade alimentar? Quais tristezas, decepções, traumas, raivas, perdas que não foram digeridos (do ponto de vista psíquico) e cujo válvula de escape acabou sendo a comida?

Para saber mais sobre a influências das questões emocionais na relação com o corpo, leia:

Efeito sanfona: entenda suas causas emocionais e como tranformá-las

O que a Psicologia tem a dizer sobre a Obesidade

Fala-se muito de “gatilhos” quando se investiga as causas dos episódios de compulsão alimentar. É interessante dizer que há duas ordens de gatilhos: os gatilhos imediatos e os gatilhos mediatos.

• Gatilhos imediatos: os que estão próximos da cena ocorrido e tem uma relação temporal direta com ela. P. ex.: “briguei com meu marido e comi um bolo inteiro de chocolate imediatamente em seguida”.

• Gatilhos mediatos: tem uma relação temporal mais longínqua e sem aparente relação direta com o evento compulsivo. P. ex.: “tenho uma relação bastante conflituosa com minha mãe, o que me traz muita raiva e decepção, mas consigo ir à escola, encontrar os meus amigos até que no meio da tarde, ‘do nada’ tenho um episódio de descontrole alimentar”.

Para a Psicanálise, que é a minha linha teórica, todos os comportamentos têm um sentido e uma causa (consciente ou inconsciente), então por mais que os episódios de compulsão alimentar possam parece que aconteceram “de repente” e sem causa aparente, eles sempre têm uma genealogia psíquica que pode ser investigada com a ajuda de um profissional e nesse sentido, também tratada e transformada.

Além disso, muitos pacientes relatam que os episódios de compulsão alimentar tem um mecanismo de “compensação” frente a alguma situação de sofrimento em sua vida (p.ex.: “como meu chefe tem me exigido muito e estou muito estressado com o trabalho, ‘mereço’ comer essa pizza toda depois desse dia difícil”). Vale a pena aqui refletir, como já disse anteriormente, sobre que sofrimento é esse e em formas de elaborá-lo para que ele não seja transformado em voracidade alimentar.

Gosto muito de repetir esse discurso para os meus pacientes do consultório: “senão podemos mudar a nossa história e as feridas que ela nos causou, podemos transformar os sentimentos que ela evoca na gente e ajudá-la a cicatrizar para parar de doer. As cicatrizes fazem parte da nossa trajetória, mas ela não nos define. Quem define o nosso destino é a gente”.

Que você possa transformar seus pesos psíquicos e conquistar a leveza interna que você merece!

Até o próximo post.

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Referencia:

Claudino, A. M. e Borges, M. B. F., 2002. Revista Brasileira de Psiquiatria 2002;24 (Suplemento III):7-12

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2 Comentários


  1. De fato, nas redes sociais, ao mesmo tempo que musas fitness e discursos de foco, força e fé se proliferam, tbm crescem mto os memes com comida, as piadas sobre comidas gostosas, sobre não conseguir parar de comer… Como vc disse, sintoma da sociedade que engorda e pune ao mesmo tempo…


  2. Essas são as ambiguidades da sociedade contemporânea, Thais! E nesse contexto, se só buscamos o reconhecimento e a aceitação das outras pessoas pra então nos sentirmos bem em relação a nós mesmos, estamos fadados a nos sentirmos miseráveis e impotentes. Por isso, que a saída é mesmo nos apropriarmos do nosso desejo, acolhermos nossas imperfeições com doçuras e buscarmos melhorar o que quisermos na nossa vida porque isso é importante pra gente (e pra ninguém mais!)

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