A culpa e a autossabotagem no processo de emagrecimento

Já ouvi muitos relatos no consultório e fora dele de pessoas que decidiram emagrecer (e que começam a tomar ações para isso), mas que sentem que se sabotam nesse processo.

“Eu começo a fazer dieta e desisto no mesmo dia”, “quero emagrecer, mas sei que vou fracassar a qualquer momento” é o que me repetem nos atendimentos.

Mas por que acontece isso? Se alguém está empenhado em mudar os hábitos de vida e melhorar a relação com o corpo, por que essa pessoa boicotaria esse processo? Não parece contraintuitivo?

Há algumas explicações para isso. Vou te apresentar quatro delas aqui nesse texto:

1) A lógica do “tudo ou nada”, que já falamos tanto em outros textos, aparece também em relação às mudanças de hábitos.

Se a pessoa fica um dia sem ir a academia por estar muito cansada ou comeu um pouco a mais no final de semana, a sensação que se tem é que se jogou o processo de emagrecimento para o alto (o famoso #jaquei do Instagram).

A pessoa sente-se assim fracassada, com uma culpa avassaladora e é por isso que acaba abrindo mão de continuar nesse processo. “Não fui essa semana na ginástica, voltei à estaca zero e não adianta ir mais”.

Tomada por vergonha em relação ao corpo e por medo de decepcionar as pessoas em volta por ter “falhado”, a tendência do sujeito é recuar e abrir mão de seu desejo e desistir eventualmente do processo de perda de peso.

Dentro de um funcionamento dualista (ou as coisas saem exatamente como espero ou me sinto arruinado), as dificuldades completamente naturais no processo de emagrecimento são vistas como algo mortífero que escancara uma falha e incompetência do sujeito naquele processo. Será mesmo?!

2) Culpa pela mudança e pela saída da zona de conforto.

As atividades repetidas geram hábitos e eles constroem a nossa zona de conforto.

Mas não é porque ela é chamada de “zona de conforto” que ela seja confortável, não. Muitas vezes, nossa zona de conforto é recheada de vergonhas, culpas, ansiedades, medos, inseguranças e mais uma série de receios para “deixar tudo exatamente como está”.

Qualquer mudança é vista como ameaçadora e por isso evitada a qualquer custo.

Construir uma nova relação com o espelho, melhorar a autoestima, abrir espaço para o prazer na relação com o corpo por serem hábitos novos são percebidos como aversivos e dignos de rejeição.

O novo e o desconhecido assustam bastante. Por esse motivo, nossa tendência a recuar frente a qualquer tropeço no meio do caminho é enorme.

O medo do fracasso, na verdade, revela um grande medo de assumir a própria potência e uma nova posição nos relacionamentos. Isso porque já vimos no artigo da semana passada (É só fechar a boca: o papel da família na compulsão alimentar e na obesidade) que a baixa autoestima está muito relacionada com o lugar que te colocam nas relações.

Por esse motivo que a culpa em perder peso é dupla: tem a ver com a forma com que o sujeito lida com ele mesmo, mas também com as pessoas a sua volta. “Perder peso” assim remete a perder o lugar de peso nas relações.

É perder, assim, o lugar de bode expiatório e “ovelha negra” nos contatos sociais. É deixar de ser alvo de bullying e de quem foi criticado frequentemente pelos outros para se autorizar a ser assertivo e assumir as próprias opiniões e vontades publicamente.

“Se eu não vou ser o que os outros querem de mim, quem eu vou ser então?”, pergunta-se o sujeito.

É por isso que eu digo que mais do que emagrecer para os outros (pois isso só vai prender a pessoa ainda mais nesse ciclo de autossabotagem), tem que se focar em perder também os “pesos emocionais” que muitas vezes vêm junto com o excesso na balança.

Deixar de carregar o mundo nas costas (como nos mostra o quadrinho da Laerte em Efeito sanfona: entenda suas causas emocionais e como transformá-las) e de viver a vida a sangue, suor e lágrimas para abrir espaço para a leveza interna. Deixar de regrar a vida por morais e obrigações para abrir espaço para as gostos e desejos singulares.

3) Sentimento de “traição” da militância gorda.

Há muitas vezes uma confusão pelas pessoas do que o Body Positivity prega no sentido da autoaceitação.

Muita gente acha que se aceitar é resignar-se frente às migalhas que a vida dá. Ou que então deve se acostumar a esse corpo que lhe desperta tanta raiva e frustração. (Falamos sobre isso no artigo: Como a Psicologia pode ajudar quem sofre com a Obesidade). Mas essa não é a premissa do Body Positivity.

O que esse movimento defende é que você possa encontrar a beleza em ser do jeito que fizer sentido para você. Cuidar da própria saúde e do próprio corpo, dentro dessa perspectiva, é algo fundamental nesse processo.

A ideia é que você possa emagrecer se você quiser e se vai te deixar mais feliz com você mesmo. E não como algo a ser cumprido para atingir o padrão e contentar as pessoas a sua volta (pois infelizmente elas sempre estarão insatisfeitas e se queixarão de você por algum motivo).

Que você possa cuidar do seu corpo com afeto e prazer e isso naturalmente te deixará mais bonito e atraente.

4) A Obesidade como cicatrizes de guerra

Essa foi uma expressão trazida por uma paciente minha em uma sessão e queria compartilhar com vocês. Seguindo essa perspectiva, a obesidade seria como uma defesa nossa que nos protege do mundo e que, ao mesmo tempo, simboliza na carne as angústias, dores, sofrimentos, medos, traumas que passamos em nossas vidas.

Acabamos, sem nos darmos conta, nos apegando ao nosso peso e ao excesso na balança para justificar para as pessoas: “olha como eu sofri”, “olha como a vida foi dura comigo”.

Falo isso pois é muito comum encontrar na história de vida de quem sofre na relação com o corpo experiências traumáticas na infância, vivência de relacionamentos abusivos, perdas e rompimentos de vínculos de forma abrupta, alto grau de decepção nas relações, histórico de violências psicológicas e físicas, um desamparo e uma solidão muito grande (como já vimos no texto: A dor de ser gordo)

Só que isso nos coloca em um lugar de vítima e refém nos relacionamentos com as pessoas em volta. Como se por meio da autopiedade, estivéssemos em busca do reconhecimento e da valorização do outro. É ele que fica então com o poder de nos colocar lá em cima para podermos brilhar para o mundo ou de nos destruir.

Por isso que repito: se a sua autoestima não está legal, a primeira mudança a fazer é assumir que você tem responsabilidade nisso. É você que sabe do seu corpo, do seu desejo e da sua história.

Sair dessa posição vitimizada e assumir o caminho da própria jornada é um passo fundamental para melhorar a relação consigo mesmo.

A construção de uma leveza interna passa por uma autorização interior e a construção de uma nova forma de estar no mundo e nas relações.

Pela escolha de uma vida onde o prazer e o desejo tenham lugar e você possa respeitar e assumir as escolhas que fazem sentido para você tanto em relação ao corpo e a alimentação quanto de uma forma geral.

Assim, é pensar na roupa e no filme que você quer ver, e não “engolir” o que todo mundo escolheu. É assumir que você quer, sim, usar biquíni e cropped tendo um corpo fora do padrão, pois é você que sabe do seu corpo e do que te deixa feliz.

É assumir seus cachos e deixar a progressiva de lado. É assumir a sua careca no caso dos homens.

É afinal, assumir a autenticidade e a singularidade nas suas escolhas.

Fica então a pergunta: quem você quer ser hoje?

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4 Comentários


  1. PARA MIM TUDO O QUE ESTÁ ESCRITO NO TEXTO ACIMA SE RESUME EM UMA SÓ FRASE : – AMAR A SÍ MESMO.


  2. Oi Leila!
    Às vezes, não é tão simples assim conquistar o amor-próprio e uma boa autoestima. Senão cuidamos das nossas questões emocionais (medos, raivas, angústias), elas acabam sendo transformadas em sintomas como a obesidade. Por isso que penso que conquistar uma leveza interna e maior liberdade emocional, como você fala, implica em poder cuidar das dores e traumas, digeri-los para poder seguir em frente com mais segurança, não é mesmo?!


  3. este texto me motivou, obrigada!


  4. Fico feliz em saber, Carolina! A ideia do blog é mesmo essa: ajudar as pessoas a desconstruirem os pesos emocionais que muitas vezes carregam para poder bancar suas escolhas com mais leveza e liberdade!
    Saiba que você pode não apenas emagrecer, mas fazer o que quiser da sua vida! É você que sabe do seu desejo e da sua história! #tamojunto

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