“Você é feliz com o que você come?”: a obsessão das mulheres por dietas

Você é feliz com o que você come?

Pois se temos a máxima, “você é o que você come”, te pergunto: a sua relação com a comida é prazerosa ou recheada de culpa? E como anda a sua relação com a sua vida?

Pergunto isso, pois fui a um restaurante por quilo essa semana e depois de pesar o meu prato (com arroz, feijão, salada, batata, carne com mais de 600 gramas – sim, eu como bastante!), comecei a reparar nos pratos da mulheres na fila.

Eram pratos diminutos e tristes. Em um deles, tinha uma porção minúscula de macarrão e salada somente. Em outro, podia-se contar 5 ovos de codorna, 3 vagens e arroz.

Olhava para as mulheres que estavam segurando-os e achei-as igualmente tristes. Com olhares cabisbaixos, resignadas que não lhes cabia mesmo prazer na relação com a comida e com a vida. Fiquei com a sensação que seguravam o mundo nas costas e que a vida lhes parecia um peso.

Corta a cena.

Abre o quadro para cena na doceria. Em meio a cafés e bolos, um grupo de mulheres (com corpos eutróficos) conversa animadamente sobre qual o tratamento estético do momento. Uma delas fala que o Dr. Fulano tem fórmulas ótimas para emagrecer. Outra fala do criolipólise que fez semana passada onde “congelou suas gorduras” por R$1500, mas que tem que fazer esse tratamento continuamente porque depois de um tempo, a gordura descongela e não adianta nada (sic).

Vira então um homem desse grupo e comenta “vocês estão aqui comendo doces e falando sobre emagrecer”e todos caem na risada e dizem que é assim mesmo.

Fica então a pergunta: por que o nosso prazer não pode aparecer na relação com a comida (e aqui falo do arroz com feijão mesmo)? Porque parece que o sufocamos de um lado e transbordamos de outro na sobremesa?

Por que precisamos também viver essa relação com a sobremesa com tanta culpa? Precisamos falar sobre dietas nesse momento para aplacar e tamponar esse prazer?

Por que estamos sempre nos sentindo inadequadas enquanto mulheres na busca desse ideal de magreza que só nos oprime?

É interessante pensar que, a despeito do que falam costumeiramente que para ser feliz com seu corpo, você precisa ser magra e se privar de prazer, isso NÃO é verdade.

Vamos desconstruir essa sentença por partes.

Primeiro, já falamos diversas vezes aqui no Blog como o corpo magro não carrega por si só a felicidade. Isso foi percebido por muitas pacientes minhas que fizeram a cirurgia bariátrica, emagreceram 60kg, estavam com IMC adequado e mesmo assim sentiam-se miseráveis e insuficientes.

(Falamos melhor sobre isso em A dor de ser gordo e em Como a Psicologia pode ajudar quem sofre com a Obesidade?)

Para conquistar uma boa autoestima, é preciso fundamentalmente estar conectado com os seus desejos, as suas vontades e seus afetos. Saber do que se gosta, o que se quer na vida e cuidar das próprias emoções são passos fundamentais na construção de uma relação mais harmoniosa consigo próprio.

Percebe que não tem nada a ver com estar ou não magro?

O que acontece muitas vezes é que junto com o emagrecimento vem um processo de empoderamento. “Como emagreci os X quilos que eu queria, sinto que eu posso fazer o que quiser na vida”.

O meu argumento é que você PODE fazer o quiser na sua vida seja com 50kg ou 100kg. Saiba que você pode se autorizar a usar a roupa que você quiser, viver uma vida sexual prazerosa, buscar uma promoção na carreira ou o que mais você tiver vontade independentemente do seu peso.

Pois muitos pacientes me falam no consultório: “quando eu emagrecer, eu vou mudar de carreira”, “quando eu emagrecer, não vou mais deixar meu marido me tratar desse jeito”, “quando eu emagrecer, vou largar essa vida de dona de casa e ir atrás do trabalho que sempre sonhei”.

Você PODE assumir HOJE o que você quiser!

Digo aos meus pacientes no consultório que não os ajudo necessariamente a emagrecer, mas que o foco do meu processo com eles é construir uma leveza interna e maior liberdade emocional.

Proponho que eles façam as pazes com seus corpos na medida que entendem as dores, traumas, raivas e angústias encobertas na relação com eles. E que podem, além disso, questionar a ditadura da magreza e acolher as singularidades de seu físico e assumir então seu desejo e suas vontades.

Que eles possam ser felizes com seus corpos do jeito que fizer sentido a eles (seja magro ou não)!

Além disso, é preciso assinalar que é POSSÍVEL ter uma relação prazerosa com a comida e mesmo assim cuidar do corpo.

Eu sou Psicóloga, mas tenho lido trabalhos muito interessantes da Nutrição Comportamental e “Mindful Eating” que acolhem os aspectos emocionais da alimentação. Além disso, ela busca desconstruir a ideia de “alimentos bons e ruins”, execra o uso das dietas e defende que o prazer deve fazer parte do comer e deve dissociá-lo da culpa.

Cortar completamente um alimento, dentro dessa perspectiva, geraria apenas mais vontade e compulsão pelo seu consumo a longo prazo.

Nessa perspectiva, o doce pós-refeição, como na cena que apresentei, deve ser acolhido dentro do cotidiano. Fazer escolhas nutricionais conscientes (comer um doce ou um hamburguer de forma plena) ajuda no empoderamento do sujeito sobre sua dieta e sobre sua relação com seu corpo.

À medida que você escuta e está mais conectado com seu corpo, você pode fazer um prato de comida mais robusto e nutritivo (o que não era o caso das mulheres que vi no restaurante). E depois você vai comer a sua sobremesa que você tanto gosta e acredito que você não vai estar tão desesperado assim.

Dessa forma, quebramos a lógica “já que me sacrifiquei na refeição, eu MEREÇO comer um doce” que mantém tantas mulheres presas nesse mecanismo de autossabotagem e derrubada da autoestima.

Comer um doce passa a fazer parte da sua rotina alimentar assim como tomar café e comer um bom bife e, nesse contexto, acaba perdendo o lugar primordial que tem para muitas pessoas.

(Para entender melhor sobre esse assunto, leia o texto A culpa e a autossabotagem no processo de emagrecimento)

Quero que você saiba assim que é POSSÍVEL construir uma relação mais harmoniosa com você mesma e isso passa por rever seu padrão alimentar e a obrigatoriedade do corpo magro.

Pois como, disse no começo, a forma que você se relaciona com a comida acaba sendo paradigmática da forma que você se relaciona com a vida em uma espiral de repressão, transbordamento de prazer e culpa que se repete sem cessar.

É a lógica tudo ou nada que já falamos tanto em outros textos.

Que tal começar a construir uma relação mais leve e prazerosa consigo própria já na próxima refeição?

Até o próximo post!

OBS: Como deixei claro nesse artigo, eu sou Psicóloga e não nutricionista. Para informações mais detalhadas sobre a Nutrição Comportamenal e Mindful Eating, sugiro buscar um profissional especializado.

Quer saber de forma mais detalhada, como construir uma relação mais leve com você mesmo? Eu escrevi um E-Book contando 8 passos na transformação de uma relação de insatisfação consigo próprio e de repulsa com o espelho e com seu corpo para uma relação mais flexível, prazerosa e de mais liberdade consigo mesmo. Para baixar GRATUITAMENTE o Ebook, só clicar aqui.

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2 Comentários


  1. A cena da doceria me lembrou algo engraçado que está acontecendo na nossa família. Três pessoas (que são magras desde que as conheço) estão se dedicando mto a emagrecer mais e a definir os músculos do corpo. Qdo elas se encontram em festas de família, se juntam e começam a falar do assunto sem parar. Falam que é preciso ter força de vontade, tomar vergonha na cara… E falam essas coisas mesmo q pessoas gordas ou não tão magras estejam ao lado. É constrangedor. Eu fico me sentindo extremamente julgada qdo eles começam essa conversa ao meu lado. Uma dessas pessoas insiste tbm no dia a dia para outros familiares aderirem a esse estilo de vida, de mta malhação e dietas restritivas. Acontece que, depois de todo esse falatório entre si e na orelha de quem está perto, eles vão lá e pegam os lanches ou os doces da festa, dizendo coisas como “ai, eu não resisto!”. Eu não sei se eu rio, se eu choro, se eu dou um soco…


  2. Eu fiquei com a impressão que essas pessoas falam em alto e bom som sobre persistência e disciplina tanto em uma afirmação narcísica quanto a uma provocação para quem não é magro e segue esse ideal de que é então obviamente preguiçoso. Pois eu sinto que muitas vezes que quem “vive para malhar” encarna uma espécie de doutrinação e obsessão em relação ao corpo: querem catequizar todo mundo em volta e rechaçam quem foge a esse lugar. E olha, eu defendo que as pessoas possam cuidar do seu corpo, mas cada um sabe de si e o faz no seu tempo e do seu jeito.
    E sabe que tem uma máxima na Nutrição Comportamental que diz que “restrição gera compulsão”? Ou seja, se você tem uma alimentação hipocalórica, desprazerosa e pouco nutritiva, você vai acabar compensando isso na ingesta da sobremesa. Isso é explicado em termos fisiológicos.
    Por isso que defendo uma relação prazeirosa com a comida e com a vida de uma forma geral! Que você possa se escutar e respeitar os seus desejos e as necessidades do seu corpo também!

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