Como ser fodástica: Coaching de Emagrecimento, Empoderamento e a Psicologia

Rolou uma polêmica nas redes sociais nos últimos dias sobre um evento intitulado “Permita-se ser Fodástica”. O evento focava em Empoderamento Feminino e dirigia-se portanto às mulheres.

Ele gerou um bafafá por um motivo especial: tinha um homem (chamado William Nascimento) entre seus palestrantes e sua especialidade era “Coach de Empoderamento Feminino”.

A internet foi à loucura por conta disso: como pode um homem falar sobre Empoderamento Feminino? O que sabe ele sobre a opressão que nós mulheres vivenciamos diariamente?

Se ele nunca passou na pele os assédios constantes, a humilhação e diferença salarial no trabalho, a pressão social sobre o ser mulher, o que tem ele a dizer?

Olha, eu não estou aqui para julgar os atributos profissionais do Sr. William Nascimento (o coach em questão). Não faço a menor ideia do tipo de abordagem que ele dará a fala dele na palestra e como usará seu instrumental enquanto coach e homem para assertar sobre empoderamento para as mulheres.

Mas esse post levantou DUAS questões importantes para mim que quero aqui dividir com vocês, leitores do meu blog.

O primeiro ponto é por que NECESSARIAMENTE você tem que viver na pele um sofrimento para poder FALAR sobre ele? Por que seu discurso SÓ ganha legitimidade se você vivencia exatamente o que você fala?

Digo isso, pois tenho recebido algumas críticas dizendo que é muita pretensão minha, enquanto pessoa magra, falar sobre gordofobia, ditadura da beleza e opressão estética. “Se você nunca vivenciou isso na pele, como pode ter a ousadia de discorrer sobre esse assunto?”, é o que me interrogam.

Essa é, aliás, uma das críticas feitas nas redes sociais a esse evento de empoderamento feminino (veja a reportagem completa em http://www.hypeness.com.br/2017/10/homem-que-se-diz-coach-de-empoderamento-feminino-causa-revolta-e-vergonha-alheia-nas-redes/)

Que régua é essa que usamos para avaliar o discurso do outro e ver se ele está suficientemente bom para nossos parâmetros ou não? Só a partir da NOSSA métrica, validamos aquele discurso como possível de existir ou não. Por quê?

É interessante dizer, em minha defesa, que sou reduzida por essas pessoas a apenas uma silhueta física. Mas sou mais do que isso: sou psicóloga e ser pensante.

Não, eu não sei verdadeiramente o que é habitar em um corpo gordo, mas sei (a partir de vivência clínica e de minha formação teórica) o que é lidar com angústias impensáveis, oscilações emocionais intensas, baixa autoestima, pressão estética, estados melancólicos e sentimento de inadequação.

Sinto-me apta então a falar (corroborado também a partir da minha própria vivência emocional) do que está PARA ALÉM DO PESO: os medos, as angústias, as dores que aparecem em assumir o próprio desejo e descolar-se das expectativas das pessoas a sua volta.

Tem um fenômeno interessante que uma leitora do blog apontou para mim certa feita que quero compartilhar com vocês.

Usamos a nossa régua particular para avaliar o outro e validar seu discurso.

Se sou uma pessoa gorda e sofro com o tamanho dos meus braços e me envergonho por conta disso, quando escuto um ícone gordo falando sobre autoaceitação e ele NÃO tem vergonha dos próprios braços, tendo a NÃO considerar seu discurso.

“Ah, ele está falando isso porque não sabe EXATAMENTE como eu me sinto e como é difícil passar o que passo e vem com esse discurso de Body Positivity para cima de mim”.

E concordo com você: ninguém sabe EXATAMENTE o que você passa, só você mesmo. Só você sabe das suas dores, das suas feridas emocionais, das suas angústias e do seu sofrimento.

É preciso que, primeiro, VOCÊ possa reconhecer isso.

Pois muitas vezes, carregamos inconscientemente nossos traumas como troféus emocionais: “olha como eu sofri”, “olha como a vida foi dura comigo”, “ninguém sabe o que eu passei”.

Já falamos disso em outro texto – Culpa e autossabotagem quando se quer emagrecer

Penso que muitas vezes, o discurso da intolerância e da vitimização esconde muito sofrimento e muito desamparo latente.

Essa competição narcísica (“eu sofro mais do que todo mundo”) oculta uma vulnerabilidade psíquica muito grande: se eu não sou o que sofre MAIS, então quem sou eu afinal?

Se eu me descolo desse lugar de O sofredor, o que eu quero para mim? Quais as minhas vontades e meus sonhos?

O segundo ponto que quero apontar e também levantado na matéria da Hypeness é que não faz sentido em um evento sobre EMPODERAMENTO FEMININO uma coach de emagrecimento.

E aqui tenho que concordar.

A questão é que o organizador do evento pressupõe que uma mulher empoderada tem que ser NECESSARIAMENTE magra. E que esse é o objetivo principal da vida das mulheres – será?

O meu questionamento não está no fato de a mulher querer emagrecer para se sentir mais satisfeita consigo mesma. Mas por que para ela ficar mais feliz com ela mesma ela tem OBRIGATORIAMENTE que ser magra?Por quê?

“Mas, Andrea, um coach de emagrecimento não poderia ajudar a pessoa a ter esse tipo de reflexão sobre a ditadura da beleza e da diversidade estética?”

Eu te respondo de forma clara e assertiva que NÃO. Não faz parte da natureza do trabalho do coach introduzir esse tipo de reflexão e questionamento.

Um coach é, por definição, um profissional que te ajuda a atingir o seu objetivo. No caso de “coaches de emagrecimento”, eles ajudam as pessoas a emagrecerem. É assim simples.

Na realidade, há uma assertiva que “coaches” de modo geral te ajudam a ser uma pessoa mais bem-sucedida em sua vida. Não à toa nesse evento “Permita-se ser Fodástica”, a maior parte dos palestrantes é coach (no caso apenas, eu trocaria o título da palestra para “Seja uma mulher bem-sucedida”, pois sucesso e empoderamento são coisas BEM diferentes).

Sucesso pressupõe que há uma escala de valores pré-definidos a ser alcançada na conquista da realização consigo mesma.

Para ser uma mulher bem-sucedida, seguindo essa premissa, é PRECISO ser magra, rica e trabalhar na sua paixão. Caso você não cumpra estas metas, você se sentirá miseravelmente fracassada.

Essa é, aliás, uma das grandes críticas ao trabalho dos coaches. Eles te ajudam no cumprimento das suas metas, mas caso você não as alcance, você se sente culpado e insuficiente.

É muito comum no trabalho dos coaches te darem “lição de casa” e tarefas entre as sessões para te ajudar no estabelecimento de seu propósito. Você fica então na posição de aluno submisso ao reconhecimento e à valorização do professor (no caso, o coach).

O relato de muitas pessoas que atendo que passaram por coaches de emagrecimento é que durante o processo, ter alguém “fiscalizando seu esforços, te dando bronca e reforçando positivamente quando você perde peso funciona”. Mas basta essa pessoas sair de cena no fim dos atendimentos que se reganha o peso e volta a subir o ponteiro na balança.

Outra queixa bastante comum de quem passa por esse tipo de processo é que as pessoas de fato emagrecem, mas não necessariamente elas se sentem mais satisfeitas e empoderadas.

Como o foco acaba sendo mesmo a perda de peso, frequentemente tem-se a sensação “emagreci, e daí?” no sentido que os “outros pesos” emocionais continuam persistindo mesmo após a subtração de alguns tamanhos de roupa.

As angústias, insatisfações e dores psíquicas permanecem mesmo após ter feito o “check” no tópico “perda de peso” em sua vida.

Como lidar com isso então?

Aí entra a diferença entre a Psicologia e o Coaching.

Enquanto o Coaching te ajuda a ser uma pessoa bem-sucedida, a Psicologia te ajuda a ser uma pessoa empoderada. A Psicologia te ajuda na construção do SER MULHER do jeito que fizer sentido para você e isso vale para todas as áreas da sua vida.

É importante dizer que falo aqui da Psicologia dentro do meu referencial teórico e a partir da minha prática clínica que é a Psicoterapia de orientação psicanalítica.

Por isso é tão comum no meu consultório, as pessoas me procurarem insatisfeitas com o peso, mas ao final de algumas sessões, me dizerem que a relação no trabalho está melhor, que está repensando a forma como se coloca no casamento e até o rumo de sua carreira.

A Psicologia não te olha como um pedaço, um fragmento, como um “corpo a ser consertado”. Ela te olha como sujeito como um todo e ela entende que seu sintoma está ancorado em seu funcionamento psíquico.

Dessa forma, quando alguém me procura buscando “perder peso”, eu busco investigar quais os pilares emocionais daquele sofrimento e forma de tratar isso. Um peso no corpo que está ligado a traumas psicológicos, a relações familiares disfuncionais, a relacionamentos amorosos abusivos, entre outros fatores e que se você não trata disso, pouco adianta a longo prazo ter emagrecido.

Além disso, como já colocamos, proponho um questionamento sobre a opressão social e a ditadura da magreza. Por que só há UM jeito de estar bem com o seu corpo que é estar magra? Por que necessariamente você tem que ter um manequim 40 para se sentir bem com você mesma?

Como é o seu corpo? Qual a sua forma física? Como poder se cuidar e respeitar a sua singularidade e o seu desejo?

Fica então a pergunta: você quer ser uma mulher bem-sucedida ou uma mulher empoderada?

Nos vemos no próximo post!

Quer saber de forma mais detalhada, como construir uma relação mais leve com você mesmo? Eu escrevi um E-Book contando 8 passos na transformação de uma relação de insatisfação consigo próprio e de repulsa com o espelho e com seu corpo para uma relação mais flexível, prazerosa e de mais liberdade consigo mesmo. Para baixar GRATUITAMENTE o Ebook, só clicar aqui.

Quer saber mais sobre autoestima, corpo e empoderamento?

Insira o seu endereço de email abaixo para receber gratuitamente as atualizações do blog!>

1 comentário


  1. Uma coisa que eu acredito mto é o conceito de “lugar de fala”. Uma pessoa branca pode e deve falar sobre racismo, mas a sua fala, a princípio, não deve ser considerada a mais verdadeira ou a mais importante, pq ela fala a partir de uma opinião, e não a partir de uma vivência.

    Aí aparece a Samara Felipo, branca, de cabelo liso, e resolve falar sobre racismo e cabelo crespo pq ela é mãe de duas meninas negras e vive junto com elas tudo o que elas passam em relação a essas coisas. O lugar de fala dela não é o de mulher negra, mas é o de mãe de crianças negras, e acho isso mto legítimo.

    Vc sempre foi magra, mas há um tempo considerável trabalha com pessoas gordas, acompanhando a vida e os dramas delas, e ainda por cima trabalha como psicóloga, o que te dá acesso a intimidades que outras profissões não dariam. O seu lugar de fala não é de pessoa gorda, mas é de psicóloga de pessoas gordas. E isso é extremamente legítimo e útil.

    Ser psicóloga te possibilitou trabalhar com o ser humano, inclusive com pessoas gordas. Ter trabalhado com muitas pessoas gordas te dá o lugar de fala necessário pra vir a público falar sobre isso.

    Uma coisa é uma opinião dada como uma mera opinião. Outra coisa é uma opinião dada a partir de uma vivência. Vc de um jeito, a Samara Felipo de outro, não têm a vivência da pessoa, mas têm a vivência do “estar junto”. Repito: isso é extremamente legítimo e importante.

Escreva aqui seu comentário