Por que encarnar a mulher-maravilha faz você engordar?

Sei que tenho escrito pouco recentemente aqui no blog. Com filha doente, marido viajando ou trabalhando muito e com cada vez mais demanda no consultório, nos últimos dois meses, meu tempo foi bastante escasso.

Nesse período, me senti frequentemente cansada, sobrecarregada e sem energia. A sensação que eu tinha era de “carregar o mundo nas costas” (como ilustra o quadrinho da Laerte no artigo Efeito sanfona: entenda suas causas emocionais e como transformá-las).

Tentando “dar conta de tudo”, eu buscava encarnar a “mulher-maravilha”. Só que a única coisa que eu conseguia alcançar era me sentir insuficiente e exausta.

Tentando “dar conta de tudo”, eu buscava encarnar a “mulher-maravilha”. Só que a única coisa que eu conseguia alcançar era me sentir insuficiente e exausta.

(Você já se sentiu assim?)

Também percebi que nesse período, tinha uma vontade enorme de comer doces e tomar MUITO café, especialmente na parte da tarde (quando o cansaço do dia batia de forma violenta).

Além de sentir que eu “merecia” essa injeção de açúcar e cafeína no sangue por estar vivendo um período tão agitado, também percebi que por conta das características dessas substâncias, eu ficava de fato “mais ligada” depois do bolo com café vespertino e conseguia dar conta de terminar meu dia.

Esse combo “doce + cafeína” funcionava para mim como as anfetaminas funcionam para os caminhoneiros.

Para dar conta da rotina exaustiva, sem descanso e com um prazo impossível de ser cumprido, muitos motoristas recorrem às drogas estimulantes “para não precisar dormir” e assim não perderem tempo de serviço.

O meu doce com café diário me ajudava a deixar acordada, melhorava minha concentração e raciocínio e dava aquela injeção de ânimo em um momento que o corpo só rogava por descanso absoluto e horas de sono.

Só que antes de eu me dar conta do “sentido” que ele tinha para mim, passei por um momento onde eu só me sentia culpada de “precisar” ir à doçaria todas as tardes nos intervalos do consultório.

Só que antes de eu me dar conta do “sentido” que ele tinha para mim, passei por um momento onde eu só me sentia culpada de “precisar” ir à doçaria todas as tardes nos intervalos do consultório.

“Por que eu estava fazendo aquilo comigo?, me perguntava quando sentia as calças mais justas e as roupas mais apertadas.

E não é assim que funciona com tudo mundo?

Como eu apontei recentemente num post de facebook (clique aqui para ver o post), o mais comum e natural é nos martirizarmos e nos preenchermos de culpa quando algo não vai bem em nossas vidas.

Mas dizia uma supervisora minha que a culpa nos cega.

Mas dizia uma supervisora minha que a culpa nos cega. Ela faz com que deixemos de perceber a nossa realidade, o nosso corpo, o nosso desejo. A culpa nos paralisa.

A saída mais automática para a culpa é a ação. “Estou comendo muito doce, engordando e me sentindo culpada por isso. Tenho, portanto, que parar de comer açúcar e fazer dieta”- não é isso que normalmente as pessoas pensam?

Mas esse raciocínio está ERRADO! Sim, ele está COMPLETAMENTE EQUIVOCADO do meu ponto de vista.

As pessoas focam em “resolver o problema” e acabar com o comportamento, mas deve-se na verdade, olhar para a causa dele.

Seria no meu caso não me punir pela vontade frenética por doces, mas me perguntar o que causava isso.

No meu caso, era a minha sensação de esgotamento e de “segurar o mundo nas costas” que acabava comigo – a compulsão por doces era só a ponta do iceberg.

É o que eu chamo na clínica de “se escutar”, de poder ouvir as próprias emoções.

A culpa nos aponta que tem algo errado com o jeito que a gente está levando a vida e ela assinala um mecanismo de colocarmos nas nossas costas a responsabilidade do problema.

Como se por um descuido, erro ou falha da nossa parte, tal evento tivesse ocorrido. Então temos que “remediar” isso corrigindo esse erro e “fazendo então o certo”.

Encarnar o papel da mulher-maravilha acaba tendo, assim, um preço alto demais para nossa saúde física e emocional.

Para levarmos o mundo nas costas equilibrando em nossos braços um número sobre-humano de pratos, acabamos exaustas e nos sentindo impotentes.

É interessante pensar que assumir o lugar de super-heroína cumpre algumas funções do ponto de vista psíquico:

1. Função compensatória: “já que a vida está tão dura, eu MEREÇO esse bolo de chocolate”.

O excesso alimentar (ou o prazer desmesurado de forma geral) vem para compensar as agruras e durezas do cotidiano.

(Sobre esse assunto, leia também Compulsão alimentar: quando a relação com a comida é uma prisão)

2. Função de ocultamento dos incômodos: “se encarno a mulher-maravilha e me responsabilizo por TUDO que acontece, não olho para a solidão que sinto no meu casamento e para as minhas insatisfações nessa relação”, por exemplo.

Sobrecarregar-se de responsabilidades, nesse sentido, pode ser um jeito de mascarar as próprias relações.

Ela, além disso, protege o sujeito do contato com as próprias insatisfações e incômodos e silencia seus questionamentos.

A culpa desmedida protege o sujeito de se dar conta da falência da relação conjugal, da raiva advinda na relação com os pais, da solidão no contato com o grupo de amigos e o deixa paralisado e anestesiado.

A saída assim não é nem carregar o mundo nas costas e nem vitimizar-se, mas refletir sobre o lugar que se coloca nos relacionamentos e dar mais espaço aos próprios sentimentos e emoções.

3. Função de silenciamento da própria vulnerabilidade:
“se eu me apresento forte e invencível o tempo todo, não preciso entrar em contato com meu desamparo e minhas angústias e vou fingindo que está tudo bem (até o mundo cair sobre a minha cabeça)”.

Uma paciente uma vez me disse no consultório que o papel de mulher-maravilha era como seu cartão de visitas pessoal. Toda vez que conhecia alguém novo desfiava seu rosário: trabalhava muito, cuidava da casa e dos filhos (só comprava comida orgânica para eles e cozinhava diariamente!), estudava para pós-graduação nas madrugadas e dormia apenas 3hs por noite.

Isso sempre era recebido com um olhar de admiração das pessoas: “impressionante”, diziam-lhe. Ela então foi se dando conta que se alimentava desse olhar e precisava dele cada vez mais, como uma droga que dava sentido a sua vida.

Admitir a própria vulnerabilidade e fragilidade é essencial para encarnarmos uma vida com mais leveza.

Por isso, a minha escolha em começar esse texto falando da minha fragilidade e do meu processo pessoal dos últimos meses.

Quero que vocês se sintam amparadas e acompanhadas nesse processo de retirada do fardo das costas para construir mais flexibilidade interna.

Vocês merecem sentir-se bem com vocês mesmas! Quero que vocês saibam disso!

A saída é primeiramente, abrir espaço para as próprias emoções. E se o fardo estiver pesado demais, por que não pedir ajuda?

Até o próximo post!

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2 Comentários


  1. Eu, como pessoa com transtorno bipolar que há 2 anos e meio enfrenta uma instabilidade constante e não consegue dar conta nem da vida cotidiana e nem do que gostaria de fazer, sinto que existe uma cobrança mto forte para que as mulheres sejam mulheres-maravilhas. Uma cobrança que passa de mulher para mulher. As mais antigas cobram que vc dê conta da casa e carregue a família nas costas. As mais modernas cobram que vc dê conta de uma vida acadêmica e/ou de uma carreira, ENQUANTO carrega a família nas costas. Eu, que não consigo fazer nada disso e que preciso constantemente de ajuda até para minhas tarefas cotidianas mais básicas, frequentemente sinto que não tenho valor nenhum por não dar conta de nada. E uma ou duas vezes por semana penso que mereço uma compensação, sim, não pelo que eu faço, mas pelo que o transtorno faz comigo.


  2. Existe mesmo uma pressão muito grande da nossa sociedade que sejamos workaholics e exibamos isso como um troféu. “Você é o que você faz” e quanto mais atividades você desempenha, maior seu reconhecimento social e subjetivo.
    Acho que isso é especialmente perverso com as mulheres, pois como você disse, agora ALÉM de cuidar da casa e dos filhos, elas também têm que trabalhar E ter boa formação acadêmica E ganhar bem, etc.
    Nesse contexto, a nossa identidade pessoal fica mesmo atrelada diretamente à nossa força de trabalho e o quanto nos sentimos “produtivos” na vida. Só que aí esquecemos nossas emoções, deixamos nossos afetos de lado e quanto mais tentamos nos encaixar, mais nos silenciamos. Quanto mais tentamos nos “adequar”, mais calamos nosso desejo e nossa singularidade.
    Acredito também que você merece ter prazer na vida! E que esses momentos de extravagância alimentar devem ser acolhidos. Comer é gostoso, é prazeroso, está repleto de afeto. Não precisa ser punido com culpa e autocomiseração.
    A Nutrição Comportamental defende que o doce e o prazer na comida façam parte da nossa rotina alimentar!
    Entendo que lidar com esse diagnóstico do transtorno não está sendo fácil. Existe um tempo de elaboração e digestão psíquica de tudo isso (do diagnóstico, do tratamento e da repercussão emocional disso tudo) e tudo bem você viver tudo isso no seu ritmo e do seu jeito.
    Sinta-se acolhida aqui, Thais!

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