Qual a relação entre compulsão alimentar e abusos físicos e emocionais?

Percebo, no consultório, que muitas pessoas com compulsão alimentar têm histórico de abusos físicos e/ou emocionais anteriores ao desencadeamento do transtorno. Mas qual a relação entre eles? Podemos considerar que a situação de abuso foi um gatilho para o quadro de compulsão alimentar? Existe uma causa única para o quadro de compulsão?

(Para entender melhor os gatilhos da compulsão alimentar, recomendamos o texto Compulsão alimentar: quando a relação com a comida é uma prisão)

Já falamos aqui no blog das causas psíquicas do quadro de compulsão: baixa autoestima, alto grau de exigência consigo mesmo, perfeccionismo, fortesentimento de culpa e vergonha (conforme o artigo O perfeccionismo tem estreita relação com os transtornos alimentares).

Também já falamos do papel da família na patogênese do transtorno (vide “É só fechar a boca: o papel da família na compulsão alimentar e na obesidade).

Mas vamos debruçarmo-nos agora sobre outra causa exógena: o papel de eventos traumáticos na constituição da sexualidade e na relação com o corpo.

Entendemos, de acordo com a Psicanálise, que o corpo é dotado de sexualidade desde o nascimento na medida que é investido de prazer e afeto pelos pais.

É o cuidado carinhoso dos pais ao manusearem o bebê aliado ao engajamento afetivo nessa relação que alimenta uma relação saudável do infante consigo mesmo e seu corpo.

A sexualidade, assim, vai passando por uma série de etapas de
desenvolvimento até desembocar na vida adulta em uma relação sexual saudável (leia-se: onde há espaço para o prazer mútuo e respeito aos limites do casal).

Mas e se os fatos não saem como previsto? E se a criança passa por
negligência parental, abusos sexuais e emocionais?

Qual o impacto que isso terá na constituição da sexualidade dela? Qual o
impacto que isso terá na sua relação com seu corpo e consigo mesma?

É interessante ter em mente, de acordo com dados do Ministério da Saúde
colhidos entre 2011 e 2017, em 37% das crianças e em 38% dos adolescentes que foram vítimas de violência sexual, o agressor tinha vínculo familiar com a vítima.

Assim, além da invasão e perturbação no funcionamento psíquico e na vivência do corpo pelo próprio abuso, há um grande agravante quando essa situação ocorre dentro de casa.

Em 33,7% dos casos em crianças e 39,8% dos casos em adolescentes, segundo a mesma pesquisa, ocorrem situações repetitivas de abuso sexual. Ou seja, há uma conivência ou ao menos negligência das figuras parentais sobre a situação de abuso gerando um forte sentimento de vergonha e principalmente de culpa em quem é vítima da violência.

Podemos ter um raciocínio semelhante em quem passa por relacionamentos abusivos na vida adulta. Seduzidas pelo parceiro que fazem-nas acreditar que são especiais e únicas, as mulheres vítimas de relacionamento abusivo vêem-se enredadas em um ciclo de crítica, terrorismo psicológico, ataques destrutivos, arrependimento seguido por declarações de amor e promessas que isso nunca mais irá acontecer.

O resultado disso é que a autoestima delas vai sendo progressivamente
minada. Seu corpo é frequentemente atacado pelos parceiros: “a culpa de eu estar saindo com outras mulheres é porque você está gorda”, repetem.

Dessa forma, a situação de abuso seja ela na infância, adolescência ou vida
adulta acarreta sequelas emocionais importantes. Um forte sentimento de
vulnerabilidade, grande necessidade de controle, fobia nas relações
interpessoais, ódio do próprio corpo, recusa da própria sexualidade e pavor de intimidade física e emocional são algumas dessas feridas.

Assim, mais do que buscar emagrecer, há sempre que perguntarmos qual a dor psíquica por trás da compulsão alimentar? O que o excesso de comida encobre em termos emocionais?

O descontrole alimentar é como uma anestesia para essas situações
traumáticas. “Como para não pensar”, me disse uma vez uma paciente.
Eu acrescentaria mais: “eu como para não lembrar (o abuso)”.

Mas será que todas as compulsões alimentares são causadas por uma situação de abuso? Não. Isso porque nem todos os abusos são dilaceradores da autoestima.

É terrível ter o seu corpo e sua sexualidade invadida e pervertida por um
adulto agressor. Mas faz uma diferença enorme em termos emocionais se esse abuso foi legitimado ou não pelas figuras de cuidado.

Poder contar com uma boa rede de apoio que oferece escuta e acolhimento após essa situação traumática faz com que a ferida cicatrize sem grandes danos.

Quando a situação de abuso é desmentida, silenciada ou, de uma forma mais grave, quando acarreta na culpabilização da vítima “você provocou porque estava com shorts curto mesmo” a ferida emocional fica aberta. Aí, abrimos espaço para a fragilidade psíquica, baixa autoestima e culpa que falamos antes.

Faz uma diferença enorme ser escutado e acolhido depois da situação
traumática para que a ferida emocional possa cicatrizar.

Entendemos, assim, do ponto de vista psíquico, que mais do que a vivência do abuso, a negligência parental (ou de uma rede de cuidados) traz marcas
importantes no desenvolvimento psíquico.

A situação de abuso, assim, não é uma causa única para a compulsão
alimentar. Há pessoas que não passaram por abuso que tem uma relação de
descontrole com a comida.

De qualquer forma, é interessante resgatarmos a ideia que há sempre uma dor que busca ser expressa na compulsão alimentar. Quais as angústias, medos, traumas que você carrega e que acabam transbordando na relação com a comida?

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Referencia:
Maioria dos casos de violência sexual contra crianças e adolescentes ocorre em casa; notificações aumentaram 83%. In G1: https://g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/maioria-dos-casos-de-violencia-sexual-contra-criancas-e-adolescentes-ocorre-em-casa-notificacao-aumentou-83.ghtml.
Acesso em 16 de janeiro de 2020

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